Circulismo e terceira idade – Matéria especial

Circulismo e terceira idade

A Fetcesp vem estimulando seus filiados e todos os círculos do Brasil a dedicarem sua atenção e seus programas à população da terceira idade. As razões já foram explicitadas em números anteriores, mas podem ser resumidas em dois pontos: 1) Este estrato etário é o que mais cresce e continuará crescendo e o poder público não tem e nem terá condições de atendê-lo. 2) Os serviços que o circulismo oferecia originalmente aos seus associados ficaram superados.

Em vista desta posição, a Fetcesp tem buscado material técnico para alicerçar seu projeto. No mês de outubro, a revista Agitação editada pelo CIEE (Centro de Integração Escola Empresa) trouxe excelente reportagem com Dr. Nilton Molina (80 anos), presidente do Conselho de Administração da Mongeral Aegon, que vem ao encontro do que estamos propondo.

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Nilton Molina, presidente do Conselho de Administração da Mongeral Aegon

Devidamente autorizado, o boletim Forças Novas transcreve abaixo, ipsis litteris, a reportagem realizada por Cláudio Barreto:

Vida longa no mundo do trabalho

“Aos 80 anos, Nilton Molina esbanja vitalidade, acumulando as presidências do Conselho de Administração da Mongeral Aegon Seguros e Previdência e do Instituto de Longevidade Mongeral. Questioná-lo se está aposentado é uma ofensa. Segundo ele, o segredo da longevidade está relacionado ao trabalho. Expert em seguro de vida e previdência, Molina criou o Instituto de Longevidade com a missão de auxiliar na reinserção de pessoas acima de 60 anos no mercado de trabalho, impulsionando a economia do país e a integração social de uma faixa etária em franco crescimento.
O Instituto em convênio com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) da USP elaborou o Projeto Reta (Regime Especial de Trabalho do Aposentado) que prevê incentivos para empresas que contratarem aposentados com relações trabalhistas mais flexíveis. O Projeto Reta será submetido ao Legislativo oportunamente”.
(Comentários sobre o Projeto Reta no final da reportagem)

Como surgiu a idéia de criar o Instituto de Longevidade Mongeral Aegon?

É uma idéia fermentada há muito tempo. Desde os anos 1970, eu já mexia com seguro de vida, o que tem muito a ver com longevidade, pois quem vive muito representa um bom negócio para as seguradoras. Por isso, o bom segurador tem de se preocupar com a demografia para não fixar mal os seus preços. Sempre acompanhei o que acontecia no mundo, principalmente nos países europeus. Estava claro que há uma modificação demográfica em curso, tanto no envelhecimento como na diminuição da natalidade. Sempre interessado, procurei estudar o assunto, e nos Estados Unidos conheci uma associação de aposentados e resolvi criar, há uns dez anos, uma entidade nos mesmos moldes no Brasil. No início, ficou parada, mas nos últimos dois anos resolvemos atuar para valer.

Quais as principais ideias e objetivos do instituto?

O Instituto de Longevidade nasceu da tentativa de criar soluções para o impacto social e econômico do aumento da expectativa de vida dos brasileiros. O fato de viver mais é um prêmio que a sociedade deu a cada um de nós. Quando nasci, em 1936, estava escalado para morrer aos 44 anos. Se eu fosse uma pessoa estatisticamente educada, deveria morrer em 1980. No entanto, a realidade mudou radicalmente e a expectativa de vida subiu para perto dos 80 anos e vai aumentar muito ainda.

Quais as principais consequências dessa tendência?

Todas as seguridades sociais, desde o final do século 19, foram pensadas para pessoas que morriam, mais ou menos, aos 60 anos. Isso foi se alterando e a sociedade não se apercebeu e nem avaliou o impacto da mudança, que em breve poderá elevar aquele limite para 90 anos. Imagine uma pessoa que começa a produzir aos 20 anos, paga o seguro social (mais conhecido como previdência) durante 35 anos, se aposenta aos 55 e vai viver até os 90, usufruindo assim de 35 anos da aposentadoria. Se não houvesse juros e demais despesas, as contas seriam equilibradas. O problema é que a estrutura da seguridade social faz o beneficiário ganhar bem mais do que pagou, pois o cálculo foi feito com base na vida até os 60 anos. É por isso que há necessidade de se fazer uma ampla reforma da Previdência.

Com a grave crise da Previdência, como será a vida dos futuros aposentados?

Uma pessoa que se aposenta aos 60 anos, saudável, percebe que não vai morrer tão cedo, pois pode durar até os 90. O que vai fazer nesses 30 anos? Ficar numa cadeira de balanço, como nossos avós? Como vai financiar esses 30 anos? O Estado vai dar recursos suficientes para manter seu padrão de vida? Não. Então ele terá de trabalhar! No entanto, ela pode trabalhar com um nível menor de estresse, com uma carga horária menor, com um volume de comprometimento menor. É desses aspectos que o instituto propõe tratar.

Como o instituto vislumbra ajudar os aposentados?

Nós temos alguns projetos prontos. Um deles é o Reta (Regime Especial de Trabalho do Aposentado), um projeto de lei para quem tem 60 anos ou mais e já esteja aposentado. A empresa o admite, mas não cria vínculo empregatício, sem custos com INSS ou fundo de garantia, pois ele manterá os benefícios da aposentadoria.

Como isso funcionaria na prática?

O aposentado não trabalharia mais de cinco horas por dia e a empresa não pode admitir mais de 5% dos funcionários nesse regime, caso contrário seria uma concorrência desleal com os jovens. A ideia, em princípio, é uma relação muito mais democrática. Quando ele não quiser mais trabalhar, pega as coisinhas dele e vai embora. Como a contratação de trabalhadores no Brasil é muito cara, precisamos de uma legislação especial para que os custos com os idosos caiam. Esse projeto foi elaborado pela Fipe-USP e mostra os impactos desse regime na economia e o impacto social.

O objetivo é apresentar o projeto no Congresso?

Sim. Como ficou pronto no meio da discussão do impeachment da presidente Dilma Rousseff, não seria viável entrar agora no Congresso. Assim que as coisas voltarem ao normal em Brasília,

pretendemos apresentar o projeto. Foi por isso que organizamos, com o CIEE, o seminário A convivência entre gerações no ambiente corporativo, para que pudéssemos expor algumas dessas ideias e sua importância no contexto de hoje.

As empresas mostram-se preocupadas com o envelhecimento da população?

Há 20 anos, as empresas não empregavam ninguém com mais de 40 anos. Hoje isso já diminuiu bastante.

Mas ainda há restrições.

Sim, acontece. Há uma substituição do mais velho pelo mais novo e isso está ligado ao conhecimento e, principalmente, à tecnologia. Velho, na realidade, é um conceito aritmético. Eu tenho 80 anos, sou velho! Sou velho para jogar futebol, mas tenho 20 anos para torcer pelo Corinthians. Então, qual a minha idade real – 80, 120, ou 20? Se a partir dos 40 anos, o indivíduo não estudou mais, não leu mais e ganha 10 mil reais, será substituído, sim, por um jovem de 23 ou 24 anos, cheio de garra e ganhando 5 mil reais. Quem provoca a substituição do profissional de 40 anos é ele mesmo: não estudou mais, está barrigudo, não consegue mais se esforçar fisicamente, fuma demasiadamente.

Não seria uma forma para enxugar os custos das empresas?

O empresário não vai substituir um funcionário só para economizar. O que ele quer, mesmo, é trocar um cara bom por um melhor. Fora de períodos de crise, quem se desemprega é a própria pessoa, que se desanima, que está cansada… Esse é um dos objetivos do instituto, cutucar a sociedade para essas questões intergeracionais.

Nos anos 1950, houve um incentivo do governo para que a população tivesse mais filhos. Poderemos viver isso novamente no Brasil?

Temos o exemplo da China. Quando a China chegou a um bilhão de habitantes, começou a aparecer a fome. O país, então, limitou a natalidade a um filho por casal. No ano retrasado, começaram a estimular que os casais tivessem um segundo filho. Acho que vai acontecer isso no Brasil, mas ainda vai demorar um pouco. Pelos dados que temos, a população ainda vai crescer nos próximos 15 anos. Depois, ela se estabiliza e começa a decrescer. Quando isso acontecer, é possível que volte a se estimular o nascimento.

A ciência prevê que a expectativa de vida ainda irá muito longe, não?

Tem cientista que diz que as pessoas que vão viver 150 anos já nasceram. Outros dizem que a média de idade chegará a 120 anos nas próximas décadas. Um ano depois que o general Douglas MacArthur assumiu o Comando Aliado no Japão, em 1945, foi feito um recenseamento que mostrou a presença de uma pessoa centenária. Hoje há registros de 37 mil japoneses com mais de cem anos. Sete mil homens e 30 mil mulheres.

Qual será o trabalho do instituto na prática?

O instituto pretende ser uma ferramenta para chamar atenção das pessoas para o fenômeno do envelhecimento no mundo. Queremos perguntar para as empresas como elas estão tratando o envelhecimento dos seus recursos humanos. Temos várias cabeças brilhantes que hoje estão na faixa dos 70 anos. Eu, por exemplo, pretendo morrer pensando e produzindo.

Os jovens terão de disputar mercado com os mais velhos?

Houve uma mudança significativa do caráter simbólico do envelhecimento. Os recentes avanços da medicina melhoraram a qualidade e a expectativa de vida e, consequentemente, provocaram um prolongamento da vida produtiva. Hoje a imagem de uma pessoa com 60 anos não condiz mais com a imagem do passado. O jovem vê o idoso como ultrapassado, frágil, doente e improdutivo. Já o idoso se vê experiente, ativo, em forma e capaz.

Se alguém me perguntar se eu estou aposentado, eu me ofendo. O jovem de 25 anos entende que pode beber dessa experiência, porque não me vê como concorrente, diferentemente de um indivíduo de 50 ou 60. Esses me veem como concorrente.

Esse conflito entre as gerações já está presente no dia a dia das empresas?

Já existe, claro. Mas são gerações que podem se complementar, atuando juntas. Porém, há um pressuposto: a empresa crescer. Se ela não cresce, os postos de trabalho permanecem estáveis

e ocupados. E se o idoso não for embora, o jovem não sobe. Em alguns países da Europa, as empresas sofrem esse problema, com muitos jovens tendo de sair de seu país para conseguir desenvolver uma carreira.

O senhor tem uma trajetória profissional que serve de exemplo a muitos jovens que estão começando agora. Poderia resumir um pouco dessa história empreendedora?

As pessoas imaginam: “o cara é um executivo, presidente da empresa, nunca passou por dificuldades e tudo isso caiu no colo dele”. Mas minha história não é bem assim. Meu pai era da classe C, um operário especializado. Com 13 anos, fui para o mercado de trabalho. Sou da geração que recebia o dinheiro no envelope e entregava fechado para a mãe. Tive de trabalhar para colaborar na renda da família e estudei à noite desde o primeiro ginasial. Mas nunca me faltou nada.

Como foi seu primeiro emprego?

Arrumaram-me emprego de servente do antigo Instituto de Aposentadoria de Pensões dos Comerciários (IAPC); parecia uma premonição. Entrava muito cedo, às 6h30 e saía às 14h. Esse foi meu primeiro e último emprego como contratado. Depois, fiz um pouco de tudo e percebi que tinha vocação para vender. Tornei-me um profissional de publicidade e marketing.

O senhor tem formação em Administração de Empresas, mas se eu lhe perguntar qual a sua profissão, o que me responde?

Sou um vendedor. Não simplesmente aquele que pega a pasta para ir vender. Hoje, é um profissional mais completo, da área de marketing, que pensa no cliente, no consumidor, na oportunidade.

Como o senhor vê a atual crise econômica? Dá para apostar as fichas no Brasil?

Quando me dizem: “estou desanimado com o Brasil, vou para outro lugar”, eu acho uma grande babaquice. O Brasil é o país da oportunidade. Crise é de momento. Logo vai passar, como passaram tantas e tantas outras.

Comentários sobre a Reta

Em oportunidade recente, o presidente da Fetcesp apresentou pessoalmente ao senador José Serra (PSDB) um esboço de projeto que guarda muita semelhança com o Reta, acrescido de um item que consideramos fundamental. O aposentado (mais de 60) poderia emprestar sua experiência e seu trabalho em entidades do terceiro setor com pequena ajuda de custo do governo. De qualquer forma, a Fetcesp está engajada no grupo que trabalha no projeto de lei que vai tentar instituir o Reta. Filiados que queiram contribuir com sugestões podem enviá-las a secretaria@fetcesp.org.br.

 

 

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